As operações de içamento e movimentação de cargas estão presentes em praticamente todos os segmentos industriais, como construção civil, siderurgia, mineração, logística, papel e celulose, petróleo e gás, indústria automotiva, metalurgia e manutenção industrial. Apesar da evolução dos equipamentos e dos sistemas de segurança, acidentes continuam ocorrendo devido, principalmente, a falhas de planejamento, erros operacionais e utilização inadequada dos acessórios de içamento.
Grande parte desses incidentes poderia ser evitada por meio da aplicação das boas práticas de engenharia, da elaboração de um Plano de Rigging quando necessário, da capacitação das equipes e da inspeção adequada dos equipamentos.
Neste artigo, apresentamos os principais erros encontrados em operações de içamento, seus impactos na segurança e as medidas recomendadas para preveni-los.
A importância do planejamento
Nenhuma operação de içamento deve começar sem planejamento.
Mesmo cargas aparentemente simples podem apresentar riscos quando não são considerados fatores como:
- peso real da carga;
- centro de gravidade;
- capacidade do equipamento;
- resistência dos pontos de içamento;
- geometria da operação;
- condições ambientais;
- Interferências na área de trabalho.
Planejar significa reduzir incertezas e antecipar situações de risco antes do início da movimentação.
Erro 1 – Desconhecer o peso real da carga
Um dos erros mais frequentes é iniciar o içamento sem conhecer o peso exato da carga.
Muitas operações ainda utilizam estimativas visuais ou informações não confirmadas, aumentando o risco de sobrecarga.
O peso deve ser obtido por meio de:
- desenhos técnicos;
- projeto da peça;
- ficha técnica;
- fabricante;
- nota fiscal;
- pesagem em balança;
- Cálculo baseado no volume e na densidade do material.
A capacidade do equipamento deve sempre ser superior às cargas efetivamente aplicadas.
Erro 2 – Ignorar o centro de gravidade
Mesmo quando o peso é conhecido, muitas operações falham por desconsiderar a posição do centro de gravidade.
Quando ele está deslocado:
- A carga pode inclinar;
- ocorre distribuição desigual dos esforços;
- aumenta a carga em um dos ramais;
- Surgem movimentos inesperados durante a elevação.
A correta identificação do centro de gravidade é indispensável para a estabilidade da carga.
Erro 3 – Utilizar acessórios inadequados
Outro erro recorrente é utilizar acessórios incompatíveis com a operação.
Exemplos:
- manilhas subdimensionadas;
- ganchos sem trava de segurança;
- lingas com capacidade insuficiente;
- olhais inadequados;
- balancins improvisados;
- Conectores sem certificação.
O conjunto de içamento deve ser dimensionado como um sistema completo, considerando que sua resistência é limitada pelo componente de menor capacidade.
Erro 4 – Desconsiderar o ângulo das lingas
O ângulo formado entre os ramais influencia diretamente os esforços transmitidos às lingas.
Quanto menor o ângulo em relação à horizontal:
- Maior será a tração em cada ramal;
- maiores serão as forças horizontais sobre a carga;
- Aumenta o risco de sobrecarga.
Selecionar uma linga apenas pelo peso da carga é um erro que pode comprometer toda a operação.
Erro 5 – Não inspecionar os equipamentos
Antes de cada utilização, todos os componentes devem ser inspecionados.
Devem ser observados:
- deformações;
- corrosão;
- desgaste;
- cortes;
- fios rompidos;
- costuras danificadas;
- trincas;
- identificação ilegível;
- Ausência de certificação.
Equipamentos danificados devem ser retirados de serviço imediatamente.
Erro 6 – Improvisar pontos de içamento
Improvisações estão entre as maiores causas de acidentes.
Nunca devem ser utilizados como pontos de içamento:
- tubulações;
- guarda-corpos;
- estruturas sem cálculo;
- chapas finas;
- perfis não dimensionados;
- Componentes destinados a outras finalidades.
Os pontos de ancoragem e de içamento devem ser projetados especificamente para suportar os esforços previstos na operação.
Erro 7 – Ultrapassar o WLL dos equipamentos
O WLL (Working Load Limit) representa a carga máxima de utilização segura do equipamento.
Ultrapassar esse limite pode provocar:
- deformações permanentes;
- fadiga acelerada;
- perda da capacidade estrutural;
- ruptura dos acessórios;
A carga de ruptura não deve ser utilizada como referência operacional.
Erro 8 – Ignorar cargas dinâmicas
Nem toda carga atua de forma estática.
Durante um içamento podem ocorrer:
- aceleração;
- frenagem;
- impactos;
- oscilações;
- vibrações;
- Balanço provocado pelo vento.
Esses efeitos aumentam os esforços atuantes e devem ser considerados no dimensionamento da operação.
Erro 9 – Trabalhar com pessoas na zona de risco
Jamais deve haver circulação de pessoas sob cargas suspensas.
A área de movimentação deve permanecer:
- isolada;
- sinalizada;
- controlada;
- Libre de obstáculos.
A permanência de trabalhadores sob a carga representa um dos riscos mais graves em operações de içamento.
Erro 10 – Não utilizar um Plano de Rigging
Operações complexas exigem planejamento formal.
O Plano de Rigging reúne informações como:
- características da carga;
- equipamentos utilizados;
- acessórios;
- centro de gravidade;
- capacidade dos componentes;
- sequência operacional;
- análise de riscos;
- Procedimentos de emergência.
Sua elaboração reduz significativamente a probabilidade de falhas.
Erro 11 – Falta de comunicação entre a equipe
O sucesso de uma operação depende da comunicação eficiente entre:
- operador do equipamento;
- sinaleiro;
- supervisor;
- Equipe de apoio.
Sinais conflitantes, ausência de radiocomunicação ou comandos simultâneos aumentam o risco de acidentes.
Sempre deve existir um único responsável pela sinalização durante o içamento.
Erro 12 – Operar em condições ambientais desfavoráveis
As condições ambientais também influenciam a segurança.
Devem ser avaliados:
- velocidade do vento;
- chuva;
- iluminação;
- temperatura;
- visibilidade;
- piso;
- interferências aéreas;
- Proximidade de redes elétricas.
Quando as condições forem inadequadas, a operação deve ser interrompida.
Erro 13 – Não proteger as lingas contra cantos vivos
Cabos de aço, cintas têxteis e cabos sintéticos podem sofrer danos quando entram em contato direto com superfícies cortantes.
Sempre que houver risco de abrasão ou corte, devem ser utilizadas proteções apropriadas para preservar a integridade das lingas.
Erro 14 – Utilizar equipamentos sem identificação
Todo acessório de içamento deve possuir identificação permanente contendo, no mínimo:
- fabricante;
- capacidade nominal (WLL);
- número de série ou rastreabilidade;
- modelo;
- Identificação exigida pela norma aplicável.
Equipamentos sem identificação não devem ser utilizados.
Erro 15 – Falta de treinamento
Mesmo equipamentos de alta qualidade podem tornar-se inseguros quando operados por profissionais sem treinamento.
A capacitação deve abranger:
- interpretação das capacidades de carga;
- inspeção dos equipamentos;
- comunicação operacional;
- sinalização;
- análise de riscos;
- Procedimentos de emergência.
Treinamento contínuo reduz significativamente a ocorrência de falhas humanas.
Boas práticas para operações seguras
Uma operação de içamento segura deve seguir alguns princípios fundamentais:
- conhecer o peso real da carga;
- localizar corretamente o centro de gravidade;
- selecionar acessórios compatíveis;
- respeitar o WLL de todos os componentes;
- considerar os ângulos das lingas;
- realizar inspeções antes do uso;
- Isolar a área de trabalho;
- utilizar pontos de içamento projetados;
- elaborar Plano de Rigging quando necessário;
- Manter comunicação eficiente entre todos os envolvidos.
A importância da cultura de segurança
Além dos aspectos técnicos, a segurança depende do comportamento das pessoas.
Uma cultura organizacional voltada para prevenção incentiva:
- cumprimento dos procedimentos;
- comunicação de riscos;
- interrupção de operações inseguras;
- inspeções frequentes;
- Melhoria contínua.
Empresas que investem em segurança reduzem acidentes, preservam equipamentos e aumentam a produtividade.
Conclusão
Os acidentes em operações de içamento raramente são resultado de um único fator. Na maioria dos casos, eles decorrem da combinação de pequenas falhas, como planejamento insuficiente, seleção inadequada de acessórios, ausência de inspeções, desconhecimento do comportamento da carga e falhas de comunicação.
A prevenção começa antes mesmo da movimentação da carga. Conhecer o peso real, identificar corretamente o centro de gravidade, respeitar o Limite de Carga de Trabalho (WLL), considerar os efeitos dos ângulos das lingas e utilizar equipamentos inspecionados são medidas essenciais para reduzir riscos.
Mais do que cumprir normas, investir em planejamento, treinamento e engenharia é uma forma de proteger vidas, preservar o patrimônio da empresa e garantir operações mais eficientes, confiáveis e sustentáveis.
Referências Técnicas
- ABNT NBR 8400 – Cálculo de equipamentos para levantamento e movimentação de cargas.
- ABNT NBR ISO 4301 – Guindastes e aparelhos de levantamento – Classificação.
- ABNT NBR ISO 12100 – Segurança de máquinas – Princípios gerais de projeto.
- ABNT NBR ISO 9927 – Inspeção de guindastes.
- ASME B30 (série) – Safety Standard for Cableways, Cranes, Derricks, Hoists, Hooks, Jacks and Slings.
- ASME BTH-1 – Design of Below-the-Hook Lifting Devices.
- EN 13155 – Cranes – Safety – Non-fixed Load Lifting Attachments.
- Normas Regulamentadoras aplicáveis, especialmente NR-11 e NR-12, além das boas práticas de engenharia e dos procedimentos internos de segurança para operações de movimentação de cargas.
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