Como calcular esforços e evitar sobrecargas silenciosas
Conhecer o peso da carga é indispensável, mas não basta. O ângulo das lingas altera a força em cada ramal e introduz componentes horizontais que podem sobrecarregar acessórios, pontos de pega, a própria carga e o dispositivo abaixo do gancho.
O peso da carga não é a força em cada linga
Considere uma carga simétrica sustentada por duas lingas iguais. Se o centro de gravidade estiver centralizado e o conjunto não apresentar acelerações relevantes, a parcela vertical será dividida igualmente entre os dois ramais. Ainda assim, cada linga inclinada precisa produzir uma componente vertical capaz de sustentar metade da carga.
Adotando α como o ângulo de cada ramal medido em relação à horizontal, a tração estática idealizada em cada ramal é:

Em que T é a tração em cada ramal, W é o peso total da carga e α é o ângulo da linga em relação à horizontal.
A referência angular deve ser declarada. Alguns fabricantes utilizam o ângulo medido em relação à vertical. Misturar as duas convenções pode levar à seleção incorreta do conjunto.
Exemplo prático com uma carga de 10 toneladas
Para facilitar a leitura operacional, considere uma carga de 10 tf, equivalente aproximadamente a 98,1 kN:

Para duas lingas idênticas, carga rígida e centro de gravidade centralizado:
| Ângulo com a horizontal | Tração em cada linga | Acréscimo sobre a parcela vertical |
| 90° | 5,00 tf | 0% |
| 60° | 5,77 tf | 15,5% |
| 45° | 7,07 tf | 41,4% |
| 30° | 10,00 tf | 100% |
A 90°, cada ramal vertical suporta 5 tf. Quando o ângulo diminui para 30°, cada linga passa a receber 10 tf, valor equivalente ao peso total da carga. Portanto, duas lingas com capacidade nominal individual de 6 tf não seriam suficientes nessa configuração, embora a soma aritmética de suas capacidades seja 12 tf.
Guias técnicos de fabricantes apresentam o mesmo comportamento por meio de fatores angulares. O valor admissível, contudo, deve ser confirmado na identificação e na tabela de capacidade do fabricante da linga, considerando material, construção, modo de amarração e configuração de uso.
O esforço horizontal também precisa ser considerado
A inclinação não aumenta apenas a tração nos ramais. Ela também gera componentes horizontais sobre a carga, seus pontos de içamento e o dispositivo utilizado.


Para a carga simétrica de 10 tf, a componente horizontal por lado é:
| Ângulo com a horizontal | Componente horizontal por lado |
| 60° | 2,89 tf |
| 45° | 5,00 tf |
| 30° | 8,66 tf |
Essas forças podem:
- comprimir ou deformar a carga;
- sobrecarregar olhais e pontos de pega;
- provocar escorregamento das lingas;
- introduzir carregamentos laterais em manilhas, olhais e ganchos;
- gerar compressão significativa em barras espaçadoras;
- comprometer embalagens, chapas finas, perfis e componentes frágeis.
A análise não termina na capacidade da linga. É necessário verificar todo o caminho das forças, desde a carga até o equipamento de elevação.
Balancim e spreader devem ser definidos pelo caminho das cargas
A nomenclatura comercial de balancins, travessas e spreaders não é uniforme. Por isso, a classificação técnica deve partir da configuração e do caminho das cargas, e não apenas do nome usado no catálogo.
Uma viga de elevação com um ou mais pontos superiores pode trabalhar predominantemente à flexão. Uma barra espaçadora suspensa por lingas superiores inclinadas e ligada à carga por ramais inferiores próximos da vertical recebe esforço predominante de compressão, além de flexão local e verificações de estabilidade.
O projeto deve contemplar, conforme aplicável, flexão, cisalhamento, compressão, flambagem global e local, fadiga, tensões nas regiões dos olhais, soldas, parafusos, pinos e demais ligações.
O emprego de um dispositivo corretamente projetado pode preservar ângulos mais favoráveis, reduzir esforços laterais sobre a carga, distribuir forças entre pontos de pega e controlar o equilíbrio de peças longas ou flexíveis. Alterar distâncias, posições de furos, comprimentos de lingas ou pontos de suspensão modifica o sistema resistente e exige avaliação técnica.
Cargas assimétricas exigem outro cálculo
A divisão igualitária entre ramais somente é válida quando o centro de gravidade está entre os pontos de pega, a geometria é simétrica e os ramais apresentam comportamento compatível. Quando o centro de gravidade está deslocado, o ponto mais próximo tende a receber a maior reação vertical.
Para dois pontos de sustentação em equilíbrio estático, com d₁ e d₂ medidos horizontalmente entre o centro de gravidade e os pontos de pega:


Depois de determinar as reações verticais, calcula-se a tração de cada ramal com seu respectivo ângulo:


Essas expressões descrevem uma condição plana, estática e idealizada. Restrições horizontais, excentricidades fora do plano, rigidez desigual, folgas, mecanismos equalizadores e efeitos dinâmicos exigem um modelo compatível com a configuração real.
Quatro pernas não significam quatro partes iguais
A existência de uma linga de quatro ramais não autoriza dividir automaticamente a carga por quatro. Diferenças de comprimento, rigidez, posicionamento, tolerância geométrica ou nivelamento podem impedir o compartilhamento uniforme.
A capacidade deve ser obtida na tabela do fabricante para a configuração efetivamente utilizada e para a condição simétrica ou assimétrica aplicável. Quando a distribuição não puder ser demonstrada, deve-se adotar uma hipótese conservadora definida por profissional qualificado.
O ângulo é apenas uma das variáveis
Mesmo quando a geometria está correta, a seleção e a liberação do conjunto devem considerar:
- peso próprio do dispositivo, lingas e acessórios;
- centro de gravidade real e possibilidade de seu deslocamento;
- aceleração, frenagem, impactos e trancos;
- arestas, superfícies abrasivas e necessidade de proteção das lingas;
- temperatura, corrosão e agentes químicos;
- modo de amarração e fatores de redução aplicáveis;
- capacidade e direção admissível de carga dos pontos de pega;
- frequência de utilização, espectro de cargas e fadiga;
- tolerâncias entre diferentes peças movimentadas;
- capacidade e condição do gancho, talha, ponte rolante, pórtico ou guindaste.
Base técnica e normativa aplicável
No Brasil, a NR-11 estabelece requisitos gerais de segurança para transporte, movimentação, armazenagem e manuseio de materiais. Entre suas determinações, está a necessidade de que os equipamentos de movimentação sejam calculados, construídos e conservados de maneira a oferecer resistência e segurança, bem como possuam indicação visível da carga máxima de trabalho permitida.
Conforme a aplicação, outras Normas Regulamentadoras podem ser complementares. A NR-12 deve ser considerada quando o dispositivo estiver integrado a máquinas ou sistemas automatizados. A NR-18 possui aplicação específica às atividades da indústria da construção.
Como referências técnicas internacionais, podem ser adotadas, conforme o escopo do projeto, os requisitos contratuais e a avaliação do responsável técnico:
- ASME B30.9:2025 – fabricação, utilização, inspeção, ensaios e manutenção de lingas;
- ASME B30.20:2025 – identificação, construção, instalação, inspeção, ensaios, manutenção e operação de dispositivos abaixo do gancho;
- ASME BTH-1:2023 – critérios mínimos de projeto estrutural, mecânico e elétrico para dispositivos abaixo do gancho;
- ASME B30.26, em sua edição contratualmente aplicável – ferragens removíveis utilizadas em movimentação de cargas;
- EN 13155, quando adotada – requisitos de segurança para acessórios de elevação de cargas não fixos.
As normas ASME e EN são referências internacionais e não substituem as obrigações legais brasileiras. A matriz normativa deve ser definida para cada equipamento, considerando tipo de dispositivo, materiais, processo de fabricação, ambiente, regime de utilização, requisitos do cliente e local de operação.
Limites do exemplo apresentado
Os cálculos deste artigo demonstram o equilíbrio estático de uma configuração simplificada. Eles não constituem o dimensionamento completo de uma linga, balancim, spreader ou outro dispositivo de içamento.
Um projeto real deve verificar, conforme aplicável:
- coeficientes dinâmicos e combinações de carga;
- resistência, estabilidade e flambagem;
- fadiga e classe de serviço;
- flexão, cisalhamento, compressão e torção;
- tensões localizadas e contato;
- soldas, pinos, parafusos, olhais e demais ligações;
- compatibilidade entre dispositivo, acessórios e carga;
- identificação, inspeções, ensaios e critérios de retirada de serviço.
Checklist antes do içamento
- O peso real da carga, do dispositivo e dos acessórios foi confirmado?
- O centro de gravidade foi identificado?
- A convenção do ângulo está declarada?
- A capacidade das lingas foi verificada na tabela do fabricante para o ângulo e o modo de amarração?
- A distribuição entre os ramais é comprovadamente simétrica?
- Olhais, manilhas e ganchos admitem a direção de carregamento?
- A carga suporta as componentes horizontais e as pressões de contato?
- Existem bordas ou superfícies capazes de danificar as lingas?
- Todos os componentes estão identificados, inspecionados e compatíveis?
- A configuração corresponde ao projeto e às instruções aplicáveis?
Conclusão
No içamento, a capacidade nominal não substitui a análise de engenharia. O peso informado é apenas o início: ângulo das lingas, centro de gravidade, pontos de pega, distribuição entre ramais e comportamento estrutural do dispositivo determinam as forças efetivamente transmitidas ao conjunto.
A Atlas Lift desenvolve balancins, spreaders, travessas, ganchos, garras e dispositivos especiais a partir das condições reais de cada processo. Os projetos podem incorporar modelagem tridimensional, análise estrutural, memória de cálculo, rastreabilidade, inspeções e documentação técnica, oferecendo previsibilidade e segurança para a operação.
Referências técnicas
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 11 – Transporte, Movimentação, Armazenagem e Manuseio de Materiais.
ASME. B30.9:2025 – Slings.
ASME. B30.20:2025 – Below-the-Hook Lifting Devices.
ASME. BTH-1:2023 – Design of Below-the-Hook Lifting Devices.
ASME. B30.26 – Rigging Hardware. Utilizar a edição definida no escopo contratual.
CROSBY GROUP. Rigging Information – Sling Angles. Material técnico do fabricante.
EN 13155 – Cranes – Safety – Non-fixed load lifting attachments. Aplicar quando prevista no projeto ou contrato.
Como a Atlas Lift pode ajudar?
A Atlas Lift desenvolve dispositivos de içamento personalizados para operações industriais de diversos segmentos. Todos os equipamentos são projetados por engenharia especializada, dimensionados conforme critérios técnicos e desenvolvidos para proporcionar maior segurança, estabilidade e eficiência operacional.
Entre as soluções desenvolvidas estão:
- Balancins de Içamento;
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